Domingo, 25 de Junho de 2006

LENDA DA PONTE DA MISARELA

Em Ferral, VIla Nova, no concelho de Montalegre ergue-se a
                  monumental ponte do diabo, medieval, cheia de beleza e
lendas.

                  Lá para as bandas de trás-os-montes, onde Vieira do Minho
                  namora com Montalegre, em terras de Barroso, a gente era
muito
                  simples e forte, crente e temente a Deus e medrosa do
Diabo.
                  Em tempos antigos houve um criminoso que vagueava e se
                  escondia na região, acabando por ser descoberto e
perseguido
                  pelas autoridades.
                  Na sua fuga, facilitada por bem conhecer o local,
deparou-se
                  com um rio que não podia ultrapassar. O rio Rabagão.
                  Em desespero pediu ajuda ao diabo que prontamente lhe
                  perguntou:
                  - Que queres de mim?
                  - Passa-me para a outra margem deste maldito rio e
dar-te-ei a
                  minha alma. Responde-lhe o criminoso.
                  O diabo não podia querer mais, nem melhor, e logo faz
aparecer
                  uma ponte, mandando o criminoso atravessar sem olhar para
                  trás. Mal ele tinha acabado de chegar à outra margem do
rio ,
                  o demónio fez desaparecer a ponte.
                  O tempo passou, o criminoso encontrou novo esconderijo.
                  Um dia a morte bateu (-lhe ) à porta
                  - Venho-te buscar, alma do diabo.
                  Aterrorizado, pede tréguas e aflito, manda chamar o padre
para
                  lhe tirar o diabo e dar-lhe os últimos sacramentos.
                  O padre encapotado, zeloso e corajoso, ritual no bolso,
água
                  benta no hissope, corre a cavalo em direcção ao leito do
                  arrependido.
                  Qual não foi o seu espanto ao chegar ao caudaloso rio
Rabagão:
                  Não havia ponte que unisse as suas margens, sobre as
rochas ,
                  torneadas pelas águas, no mesmo local, onde o criminoso
                  passara em tempos.
                  Revoltado, no afã da pressa para aliviar o cristão aflito,
em
                  desespero, ora a Deus:
                  "Meus Deus valei-me, ajudai-me, de forma a passar o rio
para
                  chegar a tempo, junto do doente".
                  Esperou o milagre, mas desesperado pela demora, grita para
a
                  margem da enorme cascata ruidosa, batendo em cachão, sobre
                  rochas já furadas, em enormes caldeiras onde a água
rodopiava
                  como um moinho:
                  - Por Deus das águas puras do Rabagão ou pelo Diabo das
pedras
                  negras, apareça aqui uma ponte de pedra, gritou o cura
cheio
                  de medo. A sua voz ecoou pelos vales fundos da Misarela e
                  respondeu o eco .uma ponte de pedra, uma ponte de pedra,
uma
                  ponte.
                  Era já lusco fosco, a noite ia chegando, as sombras do
freixo
                  e da oliveira cresciam pela encosta.
                  Os olhos do cura avistam na margem de lá, um bicho negro,
em
                  forma de grande carneiro, cornos retorcidos.
                  - És tu Satanás? E gritou forte mas medroso: Vade retro! E
de
                  imediato arroja o hissope da água benta que leva para
aspergir
                  o criminoso moribundo, em direcção à figura téctrica na
outra
                  margem da cascata, onde arreganhava os dentes brancos.
                  E qual não foi o seu espanto, ia surgindo em arco, uma
bela
                  ponte de pedra assente em ciclópicas e acasteladas rochas,
                  conforme o arco feito pela água benta.
                  E ouviu, na confusão das águas em cachão, que até as
pedras
                  moldam e furam, um estrondo, com cheio a enxofre:
                  - Arrebenta tu diabo, que esta alma não é tua, disse já
                  aliviado do medo.
                  Agradecendo o milagre, seguiu e conseguiu feliz, chegar a
                  socorrer com êxito o pecador arrependido.
                  Desde então a ponte da Misarela, ficou na lenda com fama
de
                  ponte mágica, ponte do diabo, ponte de virtude.
                  A fama da ponte cresceu e subiu mais alto, quando dois
irmãos
                  santos do sec. X, Gervásio e Senhorinha, vieram dos lados
de
                  Vieira do Minho, a caminho de Santiago de Compostela por
                  Celanova , onde visitam o Bispo S. Rosendo, de que eram
primos.
                  Espalhou-se nas redondezas a fama de ponte santa, águas
                  milagrosas, fecundas, onde o diabo não tem poder, porque
foi
                  derrotado.
                  Por terras de Barroso, de aldeias serranas, vida agreste,
de
                  casais jovens, nasciam muitos filhos, aparados por
parteiras
                  curiosas, à lareira, no escano, com grande caldeira a
fumegar
                  com água quente, no meio de muitas rezas: benza-o Deus!
                  A mortalidade infantil, cada vez maior, e o receio de se
                  perderem as almas daqueles anjinhos inocentes, bate à
porta do
                  casal barrosão.
                  A jovem mulher preocupada, pega na saca da merenda, e diz
para
                  o marido:
                  -Ó homem, morreu-nos o 1º filho. agora já de novo prenha
de 8
                  meses. E se nos morre o que vai nascer, sem baptismo como
o
                  outro?
                  - Vamos àquela ponte de virtude, que dizem de águas santas
                  benzidas por dois santos e um bispo, lá prós lados de S.
                  Marinha de Ferral?
                  E lá foram a pé os dois, desceram até à Misarela, cheios
de
                  coragem e esperança de vida. Era Outono, as noites
arrefecem,
                  acendem o lume no meio da ponte, comem o carolo de pão. E
                  ficam despertos, à espera do 1º passante depois da
meia-noite
                  e antes do nascer do Sol.
                  Os vizinhos de Sidróes ao sentirem fumo na ponte, diziam:
                  vamos que hoje há baptizado.
                  Já quase pensando voltar outro dia, ao longe, ao romper da
                  aurora, ouvem passos de socos, nas lajes da calçada.
                  - Quem vem lá, pergunta o homem, a medo?
                  - Gente de paz. Surge um barrosão, embrulhado na sua capa
de
                  burel, sacho debaixo do braço, rosto alegre e diz-lhes:
                  - Já sei que quereis ter um filho vivo.
                  - Sim, ouvimos falar dos milagres desta água tirada
debaixo da
                  ponte. O senhor, por amor de Deus, faz-nos o baptizado?
                  - Sim, irmãos, eu já adivinhava, trouxe corda e caneco
para a
                  tirar mais fácil e pura.
                  O passante assim o disse, assim o fez. Prendeu o caneco de
                  barro negro de Nantes a uma corda comprida, deixou
mergulhar o
                  caneco a meio do arco da ponte e puxou-o cheio a verter.
                  A mulher ergue a saia de burel e o saiote vermelho, ao
lado do
                  marido, e o Barrosão, verte sobre aquela barriga jovem,
                  prenhe, oval, a água límpida e fria e diz palavras rituais
e
                  sagradas:
                  "Eu te baptizo criatura de Deus. Se fores rapaz, serás
Gerváz,
                  se fores menina, serás Senhorinha. Em louvor de Deus e da
                  Virgem Maria Padre-nosso e Ave-maria".
                  Sussurram a oração e agradecem muito ao padrinho, que ali
fez
                  de padre fazendo um pré- baptismo, com garantias de ao
nascer
                  ser realmente padrinho.
                  O casal regressa a casa contente, subindo a ladeira até S.
                  Marinha, onde os Gervázios e Senhorinhas, vivos e mortos
por
                  toda a região de Barroso e Basto e Minho abundam ainda
hoje,
                  devido a este curioso ritual, assente na crença que as
águas
                  do Rabagão, antes de entrarem no Cavado têm a virtude de
dar
                  vida aos que ali passam na barriga da Mãe.
                  Quem o contou está aqui e quem o quer saber vai lá.

Zé Luís

publicado por tradicional às 17:11
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